A simbologia da magia (Controlados)

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A magia é o carro-chefe das relações simbólicas e metafóricas que permeiam o universo da série Controlados. Neste artigo serão listadas e discutidas as conexões da magia com a nossa realidade. Nesse sentido, a história da magia será seletivamente ignorada quanto a sua gênese e evolução; em geral a magia será considerada apenas em seu estado no tempo em que a história se desenrola, embora seu desenvolvimento possa a elucidar algumas questões eventualmente.

Influência e confiança[editar]

A magia e sua dinâmica representam primariamente a forma como influenciamos uns aos outros. Em vida nos encontramos em situações nas quais desejamos que alguém faça algo ou deixe de fazer algo; que sinta algo ou que pense de uma determinada forma (e, em parte considerável das vezes, nos últimos dois casos o objetivo é que faça ou deixe de fazer algo de qualquer maneira).

A magia representa uma maneira pela qual chega-se a esta influência. A julgar pela forma como a magia surgiu após o fim da Rede de Luz, ela pode ser vista também como uma forma contrastante de se chegar a esta influência. Através da Rede de Luz os humanos chegam a acordos que envolvem diálogo e profunda alteração de pontos de vista (extrema empatia) entre as partes. Portanto, ao querer que alguém faça algo, sinta algo ou pense algo, a Rede de Luz promove um diálogo significativo para satisfazer essas vontades.

A magia, por outro lado, providencia um meio invisível, não-declarado de influenciar alguém. Representa, portanto, a manipulação: um controle que não pressupõe, e sempre que possível dispensa, a consciência e o consentimento daqueles que são influenciados.

Thomas Hobbes, um dos filósofos políticos que não acreditava na possibilidade de autogestão dos grupos humanos.

As vantagens do método da Rede de Luz, de modo geral, estão expressas em princípio (é melhor porque a honestidade, a transparência, e a autonomia de todos, essas coisas deveriam ser respeitadas) mas a desvantagem é que ele exige negociação, coragem para tornar "pública" (expressa, explícita) uma vontade de influenciar alguém e confiança para que qualquer compromisso final seja honrado --- incluindo aceitar que talvez a influência não seja aceita e o resultado pretendido, não alcançado. Com a magia o preço a pagar é invisibilizado porque quem o paga são os oprimidos, os controlados --- e as vantagens ficam para os magos, que conseguem o que querem sem precisar de negociação, sem precisar compartilhar planos e ações, e sem esperar pela decisão de outrem: a influência será aceita e o que quer que se queira será feito e pronto. A confiança é mínima, e também pré-condição: ao não confiar que as sociedades possam funcionar através do diálogo, a magia torna-se o esquema dominante de organização social.

Muitos esquemas de organização social e política justificam-se na mesma falta de confiança: de Hobbes a Rousseau, embora numa influência muito mais ampla, especula-se que se não fossem pelas estruturas que hierarquizam e distribuem de forma desigual o poder de "tomar decisões" (as que serão executadas por outrem) as pessoas seriam tragadas para alguma espécie de "guerra de todos contra todos". Marshall Sahlins argumenta que no coração desse argumento está a crença ocidental em uma natureza humana inerentemente negativa que, se não controlada, leva à total destruição em termos sociais.

Num plano pessoal, poderíamos pensar em exemplos. O método que envolve diálogo é aquele de uma pessoa que quer alguma coisa de alguém, e então conversa com a pessoa, negocia, explica a situação, e espera que o pedido / a oferta seja aceito(a). O método mágico envolve manipular a pessoa de alguma forma para que o resultado seja alcançado. Quando temos a interseção disso com o plano político --- como um grupo de pessoas pode se coordenar para causar uma influência em outro grupo de pessoas dentro da sociedade --- chegamos a três grandes classificações de manipulação usadas no universo de Controlados.

Os espólicos como chantagem e como biopolítica[editar]

No cenário acima, a forma mais rápida e mais eficiente - dadas as condições favoráveis para o opressor - de conseguir o que se quer é usar a força. Usando um termo mais geral que traduz força por vantagem, podemos chegar a um elemento que mais bem define essa luta para que a influência dê certo: a chantagem. Faça o que eu quero ou você sofrerá fisicamente. Faça o que eu quero ou o colocarei em uma situação desagradável.

Os espólicos representam essa forma de influência do tipo mágico: os espólicos dobram a vontade de alguém (seu iaumo) assim como quem chantageia dirige as ações do chantageado. Ao dominar o iaumo, os espólicos não alteram os pensamentos ou sentimentos de alguém: a pessoa faz o que o mago quer, mas ainda pode sentir que aquilo é ruim ou pensar que aquilo é ruim. Da mesma forma com a chantagem, onde as ações dos chantageados não falam por seus pensamentos ou sentimentos.

Toda forma de repressão ou (para evitar o termo muito mais usado em conotação negativa) de castigo que tenha como objetivo desviar a ação para uma única escolha é representada pelos espólicos em Controlados. O alistamento e o voto obrigatórios; a própria polícia e, em um sentido maior, o monopólio do uso da força por parte do Estado.

Há ainda que se considerar duas coisas.

Em primeiro lugar, embora a técnica espólica não interfira com sentimentos e pensamentos diretamente, o Benjamin Franklin pode ser responsável por uma alteração na "atitude" de alguém a partir da magia que força uma ação. Isso pode ser visto, por exemplo, em um comentário no capítulo 31 do Volume I sobre isso.

A natureza puramente simbólica do universo da série quebra a metáfora dos espólicos em um ponto: é uma chantagem sem leverage (vantagem). O mago usa uma técnica para controlar o corpo de alguém, não sendo necessário qualquer objeto que justifique a "chantagem". É como se a chantagem fosse o simples uso da força (faça ou você vai sofrer fisicamente), mas também não é óbvio que a pessoa deve escolher fazer algo ou vai sofrer as consequências (pois para sofrê-las precisa ainda estar sob o julgo do mago, voltado ao paradoxo). O que se dá na relação entre mago e controlado é o controle direto da decisão, o controle da ação em si muito mais como uma máquina que obriga a fazer algo do que como um chantagista, que ainda possibilita uma opção.

O controle minucioso do corpo, da ação em si, também lembra o conceito de biopolítica como pensado por Foucault. Através do cuidado e da vigilância o corpo se acostuma a agir dentro de uma normatividade positiva desenhada a partir de considerações específicas (os corpos das pessoas devem funcionar de tal e tal forma porque isso é positivo para nós de tal e tal maneira). A conexão não vai muito longe, contudo; Foucault fala de uma realidade escolar, de uma realidade em que exércitos e hospitais são muito mais sistemáticos que as instituições correspondentes em Heelum (que também têm um desenvolvimento histórico substancialmente diferente).

Os preculgos e as armadilhas do intelecto[editar]

Outra forma de influenciar alguém é fazer com que ela pense de tal e tal forma que a leve a agir da forma pretendida. Na forma como a magia opera, uma confrontação aberta --- uma discussão --- já implica uma negociação, a possibilidade de que a pessoa não se convença mesmo da verdade mais evidente. Além disso, muitas vezes a lógica não suporta incondicionalmente uma posição, e em outras vezes a priorização de um argumento sobre outro é uma questão puramente axiológica (ou seja, um juízo de valor).

Charge de Latuff sobre o "Partido da Imprensa Golpista", alusão à forma como os grandes meios de comunicação influenciam de forma implícita e explícita o pensamento de um grande número de pessoas. Este é um exemplo do que identificaríamos no universo de Controlados como magia preculga.

Com isso tudo chega-se às mentiras e [1], às omissões e às manipulações de informação; à concentração e repetição em um único ponto específico, e também ao apagamento de outros argumentos e outras questões. Julgamentos e cálculos também podem entrar no jogo quando o assunto é uma decisão a ser tomada, naquilo que é conhecido entre os preculgos como os pilares da conduta.

Os preculgos representam, nesse sentido, uma série de acontecimentos e eventos do nosso mundo. A desinformação, a manipulação e a parcialidade não-declarada propagada pelas grandes empresas de mídia e jornalismo, no caso brasileiro (embora em outras regiões a situação possa não ser diferente, em absoluto). A forma como a linguagem oculta sinais e pontos estruturais de opressões e discriminações. A forma como conceitos de ciência, economia, humanidade, sociedade, etc são moldados e trabalhados para reforçar estruturas de interesse dos opressores. Todas as ditaduras, autocracias e absolutismos modernos na forma como censuram, coordenam e preparam a informação para moldar as mentes daqueles que não estão familiares com os bastidores.

Os bomins[editar]

Os bomins, de forma simétrica aos preculgos, representam toda forma de influência que tenha por objetivo gerar comportamento através dos sentimentos. A influência sensorial é importante (causar vontades, dores, medos), assim como a que mexe com o orgulho, com o amor, com o ódio. Foi uma influência "bomin" que inspirou a série Controlados.

Como a influência sensorial geralmente se apresenta como mais urgente que um processo intelectual (uma série de pensamentos), so bomins tendem a confiar mais no impacto de suas técnicas: se querem que alguém aja porque sinta que tem vontade de fazê-lo, causam muita vontade para que as pessoas não reflitam sobre o assunto e simplesmente ajam. Os preculgos costumam confiar mais em sua invisibilidade, ou seja, na garantia de que o controlado jamais desconfiará que aqueles pensamentos não são seus. O paralelo pode não se aplicar tão bem ao mundo real a partir de análise mais profunda, mas certas táticas bomins a que somos submetidos diariamente certamente apelam para o imediatismo, para uma forma de "presentismo" desesperado em que nenhuma vontade pode ser deixada para ser saciada amanhã. Afinal, bordões populares tais como "ligue já", "venha já", "está esperando o quê?", etc, são usados com frequência por alguma razão.

Na vida real as técnicas para influenciar os sentimentos são carregadas de um forte suporte sensorial: imagens e sons, principalmente, através da propaganda. A conexão memética pretendida é sempre a conexão entre a ação desejada (a compra, o voto, seja o que for) e um sentimento (medo, ansiedade, frustração, raiva). Na metáfora da série a conexão é mais invisível, mas é discutível até onde as influências que apelam para as emoções deixam o apelo claro, especialmente se tratarmos como essencial o caso da publicidade.

Uma questão econômica[editar]

Em geral, a série Controlados baseia-se nas polêmicas ao redor das ideias de poder e desigualdade. A magia representa a influência, ou uma forma específica de influenciar, cujo resultado (e objetivo inicial), a nível social, é a desigualdade.

A "pirâmide do sistema capitalista" é de certa forma parte do alvo da crítica simbólica que a série faz com sua magia. Mas, para ser mais preciso, todo sistema opressor, inclusive os totalitarismos caem no guarda-chuva do tema "magia" na série, o capitalismo apenas sendo o mais perspicaz deles no que tange ao auto-apagamento.

No entanto, existem diversas formas de desigualdades: a desigualdade no poder em geral se reflete na desigualdade econômica e de status, passando também por uma questão de identidade e de pertença a grupos influentes. É nesse tipo de desigualdade que a série se foca, e daí pode-se extrair uma variedade de pensamentos.

Começando pela observação de que esse "foco" se traduz no estabelecimento de Heelum como um lugar mais igualitário entre homens e mulheres, e sem indicadores de racismo estrutural ou explícito. A razão por detrás dessas escolhas na escrita da série foi a simplificação: ao se focar em apenas uma forma de desigualdade a metáfora torna-se mais simples, algo de alguma importância para a consistência de obras literárias com alto teor simbólico. E, da mesma forma como é evidente que o fim de desigualdades econômicas não levará necessariamente ao subsequente fim de desigualdades socioculturais, a história do desenvolvimento da desigualdade de poder em Heelum também pode vir a ilustrar como o fim das mais variadas desigualdades não levaria, necessariamente, ao fim da desigualdade quanto ao poder, pois esta última se baseia na forma como os grupos decidem sobre quem tomará decisões, quem será responsável por realizar qual e qual trabalho, e assim por diante - ou seja, o modo como se organizam para influenciar uns aos outros, e o que isto significa a longo prazo.

O iluminismo, o jornalismo e os alorfos[editar]

Os alorfos e os filinorfos representam dois tipos de reação à desigualdade causada pelas interações sociais dos magos - duas propostas de solução que não são, afinal, tão diferentes de opções que encontramos na vida real para lutar com a nossa desigualdade.

O caso dos alorfos remete fortemente ao iluminismo e à ideia de que o entendimento, a razão, levaria a alguma forma de redenção social em última instância. Curiosamente, o que ilustra um pouco das diferenças culturais entre Heelum e nossa história, um dos maiores símbolos do iluminismo foi a enciclopédia. Os livros, no entanto, não são armas para os alorfos; ao invés disso, devido à peculiar dinâmica mágica e à absorção das táticas das antigas tradições mágicas (que tornaram-se, portanto, dogma não questionado), os alorfos preferem ensinar através do contato do professor com os discípulos, a única inovação sendo a quantidade de discípulos e os objetivos menos exigentes do ensino.

Há outras falhas com a comparação. Os iluministas, ao falarem de esclarecimento, referiam-se à filosofia, à ciência, à lógica do mundo como um todo. Os alorfos têm um escopo muito mais limitado: querem que o povo analise bem a sociedade depois de saberem o que os magos podem fazer - e então decidam se há ou não algo de muito suspeito e errado na desigualdade geral. Além disso, os iluministas falavam de um mundo pós-Descartes; para os moradores de Heelum, o passado e a mecânica do mundo lhes parece mais transparente, simples e resolvido. A simplificação que a história engendrou, como comentado acima, também opera aqui: o povo de Heelum sequer lida com diferentes religiões entre as diversas cidades.

Nesse sentido, os alorfos assemelham-se mais a jornalistas investigativos cuja missão é denunciar esquemas de corrupção --- ou teóricos cujos trabalhos denunciam as estruturas da desigualdade e da opressão. O próprio trabalho de professores a que se entregam, e seu objetivo de repassar o conhecimento adiante, lembra esse tipo de atitude.

Quanto a isso, é preciso pensar também no paralelo a ser traçado com a Universidade em Ia-u-jambu: se os alorfos são professores mas não são admitidos dentro da lógica da Universidade, é porque enquanto usuários da magia estão banidos da esfera de pensamento, de ação, de conhecimento a que a instituição se circunscreveu. Numa possível comparação que, sendo arriscada, é também curiosa, poder-se-ia especular que militantes podem ser bons professores ao propagar suas ideias e denunciar explorações, mas enquanto acadêmicos desrespeitam as regras da academia ao cruzar a linha da "análise fria" que deles se espera nas regras canônicas do ofício.

Filinorfos e militantes extremos[editar]

Já os filinorfos traçam um paralelo com diversos grupos polêmicos em nossa realidade --- guerrilheiros, extremistas, terroristas, entre outros. Neste último caso a comparação fica complicada, contudo: filinorfos têm o desejo (e a necessidade forçada, por causa de limitações técnicas) de serem cirúrgicos e focados na eliminação de magos, não de causar terror em população desconexa com a situação. No aspecto organizacional, contudo, as células independentes, horizontalmente organizadas e supra-institucionais lembram  a organização de grupos terroristas.

As mesmas dúvidas e os mesmos problemas de perspectiva surgem no que tange aos filinorfos: a validade de seus objetivos condiciona também a forma como os métodos serão encarados. É um dilema moral, ético e axiológico que não é só inquietante na vida real mas também em Heelum, como testemunham os debates do [sc name="cap11long"], ou os acontecimentos do capítulo extra do Volume I, A promessa vazia dos alorfos.

As relações entre as tradições[editar]

A relação entre os grupos mais tradicionais de magia (os bomins, os preculgos e os espólicos) são duplas e contraditórias, mas também complementares. Por um lado há um esforço para que as técnicas não se misturem entre si. Isso não se trata, no tempo em que os acontecimentos da série são narrados, apenas de uma questão prática. Trata-se também de uma questão histórica e cultural, já que os grupos se mantêm separados também pela desconfiança que permeia a relação entre os magos (como discutido acima). Nesse sentido, há muita estigmatização e preconceito entre os grupos --- um orgulho identitário que também é fonte de grande solidariedade entre os membros de cada tradição.

Por outro lado, no sentido mais político, há a colaboração entre os magos em cada cidade, também representada no Conselho dos Magos. Quaisquer diferenças são postas de lado para buscar a vantagem mútua.

A união dos magos pode ser vista simbolicamente de diversas formas: desde o apoio de grandes detentores de riqueza (e os Estados correspondentes) a golpes de Estado passando pela formação de monopólios e cartéis.

A colaboração entre poderosos foi sempre uma constante na história ocidental - podemos pensar, por exemplo, na forma como casamentos eram usados para unir famílias governantes e, portanto, Estados inteiros. A ideia de que é preciso um contrapeso, uma forma de contrabalançar e tornar menos desigual a concentração desse poder, é republicana em essência mas, na prática, leis contra monopólios e cartéis são coisas da história recente.

Em Heelum, os magos sabem ser adversários e, embora ajudem uns aos outros, sabem também que não podem romper o limite que daria poder demais a alguém ou a um grupo --- a própria força deles depende desse equilíbrio. É, em certo sentido, uma estratégia melhor dividir o poder, uma vez que ele é dividido entre poucas pessoas, do que arriscar uma corrida para ser seu único detentor e, no caso de derrota, acabar em uma situação calamitosa.

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