Capítulo 11 do Volume 1: Alorfos e filinorfos (Controlados)

De Wiki Petercast
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"Alorfos e filinorfos" é o décimo-primeiro capítulo da Parte I do Volume 1 da série Controlados (A Aliança dos Castelos Ocultos).

Ao terminar este capítulo, o leitor terá lido 17% do livro.

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Al-u-een foi a terceira cidade a ser fundada depois que os humanos fugiram do Yutsi Rubro, deixando a Cidade Arcaica para trás. No entanto, diz o ditado popular local que ela foi a primeira, já que foi a única cujo povo, à época, quis ficar exatamente onde estava. Kerlz-u-een e Rirn-u-jir não passavam de postos militares; fortalezas provisórias que todos desejavam abandonar ao primeiro sinal de que pudessem voltar para o lugar de onde vieram. Um ditado jocoso de Roun-u-joss dizia que ela foi a primeira cidade a descobrir a justiça --- o que, curiosamente, alguns em Al-u-een ouviriam sem notar o sarcasmo.

Rivalidades e história

O ditado vem de Roun-u-joss porque a cidade, próxima a Al-u-een, é uma espécie de "rival" - não em algum assunto específico, mas as pessoas que gostam de uma cidade costumam desgostar da outra e vice-versa. A pequena história da vontade de permanência que está na gênese de Al-u-een pode ser melhor compreendida com a leitura de artigos sobre a segunda aurora na seção História de Heelum.

Ambos os ditados informavam muito sobre a cidade. Ao longo da história foi um dos locais mais influentes de Heelum: sua arquitetura, cheia de colunas, igualdades e proporções, era muito admirada e copiada. Suas esculturas, que complementavam de forma brilhante o urbanismo perfeccionista, geraram toda uma tradição por seus próprios métodos. Sua política serviu como modelo natural para Rouneen, Ia-u-jambu e Novo-u-joss em seus primeiros tempos.

Na manhã seguinte àquela noite gelada, Al-u-een seria o cenário de um assassinato.

Ao sul do Rio Ia dois homens caminhavam por uma rua em frente à praia, vestindo grossas capas negras por sobre roupas presumivelmente ainda mais quentes. As ondas iam e vinham, no eterno quid pro quo com a fina areia. A distâncias regulares, um poste de corvônia brotava da calçada da rua de paralelepípedos. Altos e resistentes, tais postes terminavam em uma esfera oblonga da qual saíam oito finas hastes curvilíneas, simetricamente dispostas como as de um polvo. As hastes juntavam-se em uma espécie de pedestal, acima da esfera, e lá era colocado o minério que iluminaria aquele pequeno trecho da cidade. Com as mãos nos bolsos, os dois andavam despreocupadamente, mas nisto fingiam: pensavam seriamente no que aquela noite podia trazer.

Leitura literal

O poste de corvônia não está literalmente "brotando" do chão, esta é apenas uma expressão. O post, anteriormente de madeira, foi posto ali e então convertido para a corvônia.

--- Que casa é? --- Perguntou Kan.

--- Esta.

Enfim pararam. O homem que identificou a casa, Lenzo, tinha um rosto redondo e relativamente pequeno. Seus olhos, amendoados e castanhos, vasculhavam a rua à procura de algum estranho a observá-los.

--- Me esconde. --- Pediu ele.

Kan, com longos rosto e corpo e a barba por fazer, fez que sim com a cabeça. Mergulhou em um outro tipo de escuridão, e quando emergiu estava pisando não em pedra, mas em grama.

Olhou para o lado e viu um imponente castelo dourado fosco; reconheceu estar ao lado da torre oeste. Voltou-se para a frente e, com um rápido escrutínio, percorreu a região inteira. Sentiu o vento no rosto ao percorrer toda a área, todas as direções, e voltar até onde estava. As estrelas ainda giravam e se recombinavam no céu quando ele assegurou-se de que aquele era mesmo o único outro castelo na região --- quando assegurou-se de que estavam, enfim, sozinhos.

Esconder o castelo

Esta é a técnica alorfa e filinorfa de "esconder o castelo": o castelo de quem for ocultado não poderá ser visto por nenhum outro mago que não o ocultante, embora ele possa ser descoberto pelo toque, e também não impeça que sons se espalhem pelo ambiente em Neborum. É preciso que "alguém" esconda o castelo de outra pessoa - seguindo a tradicional lógica que diz que não se pode fazer magia em si mesmo, é preciso um mago para ocultar outro.

Levantou as mãos em direção à construção, um pouco menor que a própria e, como numa súplica por esmola, manteve a palma da mão para cima. Logo a escuridão do céu começava a se misturar com as sombras do castelo, e as luzes, vindas dos minérios nas salas com janelas, começavam a brilhar mais forte, para depois serem engolidas para dentro da escuridão que caía por sobre o prédio como se o céu derretesse. Enquanto os últimos raios de luz entortavam-se num redemoinho, o próprio castelo chegava mais perto dele; a destruição fazia aproximar, sem força e sem movimento, sem tirar do lugar.

O próprio céu ganhou as tonalidades das paredes externas do castelo e, logo depois, o mago se viu do lado de dentro, e todos os objetos do salão principal --- das velas às cadeiras --- estavam distorcidos e estendidos; ora grandes demais, ora pequenos demais, formando uma redoma de paredes e luz ao redor do centro que havia se tornado o mago. O teto esférico começou a convergir para ele e, antes que tudo entrasse em colapso, o mago fechou os olhos.

Após sentir um breve calafrio, abriu-os e contemplou a rua em frente à praia novamente.

--- Não tem mais ninguém? --- Perguntou Lenzo.

--- Eu não vi. --- Respondeu Kan. --- Agora anda, me esconde também.

Lenzo bateu duas vezes na porta da pequena casa. Ela ficava no meio de um terreno grande, e suas paredes externas, pintadas em azul real, estavam longe das paredes de todas as casas da vizinhança. Completamente quadrada e com apenas uma janela nos fundos, emoldurada com madeira pintada de amarelo, a casa era de arquitetura tão empobrecida que era uma raridade naquele bairro de Al-u-een.

--- Quem? --- Perguntou uma seca voz feminina.

--- Lenzo e Kan.

A porta se abriu. A fraca luz da rua não conseguia adentrar o recinto, tão intensa a escuridão do lugar; os dois magos, com seus castelos tornados invisíveis um pelo outro, conseguiam ver apenas um fino braço, iluminado de azul claro, segurando a porta pelo lado de dentro.

Assim que entraram e a porta se fechou, a escuridão foi completa. Ouviram um barulho; um farfalhar que adivinharam estar relacionado a roupas ou tecidos, e depois um baque maciço de algo como uma pedra contra uma superfície de madeira. Uma luz vermelha começou a surgir em cima daquilo que parecia ser cada vez mais uma mesa redonda. A luz, ainda que não tão forte quanto poderia ser se cinco pessoas não estivessem aglomeradas naquele espaço abafado, revelava os rostos dos convidados e dos anfitriões da noite.

Minério de luz

Este é um minério de luz, que é ativado pelo frio. Portanto, a reunião de pessoas em um lugar fechado provoca certo calor, o que diminui sua intensidade.

--- Boa noite, Lenzo.

Aquele com a palavra era um homem moreno e forte, com um rosto grande e cheio. Seus olhos escuros abaixo de uma cabeça perfeitamente lisa, juntamente à boca fechada disposta em um contido sorriso, davam efusivas boas vindas aos visitantes.

--- Obrigado por trazer Kan. --- Completou ele.

--- Hiram. Há muito tempo não nos vemos. --- Disse Kan, com um sorriso similar.

--- Não querem se sentar?

Kan pigarreou após acomodarem-se, ele e Lenzo, nas cadeiras disponíveis.

--- Quem são os amigos?

--- Este é Gagé, filinorfo de Kerlz-u-een --- Hiram apontou para o homem à direita dele, de pele ainda mais escura que a própria e com um curto cabelo encaracolado. --- E esta é Raquel, de Roun-u-joss. --- Hiram apontou para a mulher de rosto experiente, e cabelo castanho-claro preso num grande coque. --- Este, meus amigos, é Kan, o alorfo de quem muito falei esta semana.

Gagé era musculoso, mas de baixo porte, enquanto Raquel era o completo oposto. Alta, mas magérrima. Hiram fazia uma boa média aritmética entre os dois tipos.

--- Aposto que não fala muito bem de mim, não é?

--- Eu?! --- Perguntou Hiram, pondo o dedo indicador no próprio peito ao libertar-se numa risada contundente. --- Pode apostar que sempre falo muito bem de você, meu amigo!

Hiram ria sempre com vigor, as bochechas quase forçando os olhos a se fecharem. Disso Kan se lembrava.

--- Lenzo me disse que você queria falar comigo. Por que me chamou aqui, Hiram?

Hiram respirou fundo, olhando para os dedos médios de Kan, que tamborilavam na mesa.

--- Porque precisamos de você, Kan.

--- Por quê? O que vocês pretendem?

--- Matar Hourin. --- Respondeu Hiram, com simplicidade.

Kan olhou para Lenzo, cujo olhar parecia estar em outro lugar.

--- Você enlouqueceu?

--- Não.

--- Você está falando sério?

O filinorfo aproximou seu corpo da mesa e, com as mãos ficando perto do minério, a luz levemente feneceu.

--- Eu vou ser sincero com você, Kan. Você era um dos nossos. Estava conosco. Lembra-se de nós? De nós dois, antigamente? --- Kan balançou a cabeça, sem parar de olhar com o que parecia ser regulada curiosidade para Hiram. --- Eu sinto saudades. De verdade. Não consigo esconder isso, você sabe como eu sou... E então você nos abandonou. Preferiu ser um alorfo... Preferiu acreditar que você pode consertar tudo de errado que há com o mundo ensinando magia às pessoas. Tudo bem. Não deixa de ser um nobre objetivo. A conscientização. --- Se afastou novamente, ficando levemente deitado na cadeira, a luz vermelha produzindo sombras tortas nos olhos de Hiram, Gagé e Raquel. --- Mas me dói acreditar que você realmente cai nessa ilusão.

--- Qual é a maior ilusão, Hiram? Acreditar que a educação das pessoas para a magia é a melhor forma de ajudá-las ou acreditar que a morte de um político qualquer vai mudar alguma coisa?

--- Você está dando veneno às pessoas achando que vai curá-las da doença, Kan!

--- Mas a magia não é veneno. É ferramenta. Você pode usá-la para o bem ou para o mal.

--- Ah, disso eu já ouvi... E você, que já foi um mago comum? Um preculgo? Acha mesmo que seu mestre se preocupava com o bem ou o mal, Kan?

Magia como ferramenta

Essa é uma grande discussão acerca do papel da magia. Afinal, o que é a magia no sentido dos efeitos que provoca em cada indivíduo e socialmente? Aqueles que vão pela via tecnológica a veem como uma espécie de recurso, e o que deve ser ajustado é a perspectiva moral que levará os humanos a usarem a magia "para o bem" ao invés de "para o mal". Para outros, no entanto, a magia não pode ser vista como tecnologia e sim como determinante de relações, ou seja, não é algo que se usa nas relações interpessoais, mas é a forma de se relacionar com outras pessoas em primeiro lugar. Ao determinar a forma, a magia transforma a sociedade em um molde que reflete as desigualdades da comunidade mágica - em primeiro e mais importante lugar, a distinção entre magos e não-magos, e daí o que se desenvolve é injustiça, exploração e dominação.

--- Eu me preocupo. --- Agora era Kan a recuar na cadeira. --- É o que me basta.

--- Que pena, Kan. Que pena que não basta às milhares de pessoas doentes, miseráveis ou simplesmente vivendo em condições terríveis de vida porque elas trabalham, às vezes como loucos, para saciar a fome inesgotável dos senhores magos. --- Hiram pôs uma ênfase tamanha na última palavra que era como se falasse de pragas de lavoura. --- Pessoas sem cuidados médicos, com casas podres, sem uma roupa digna, sem comida suficiente.

Lenzo observava Kan, continuando os dois tão sérios quanto antes.

--- Eu sei, Kan, eu sei... Não se preocupe em demonstrar sua frustração. Eu conheço você, e sei que a sua incapacidade de falar não significa que reconheceu sua derrota.

--- Isso não é uma disputa.

--- Ah, Kan, sempre é! --- Riu-se Hiram. --- Sempre é uma disputa! Mas nesse caso é uma disputa de você consigo mesmo... Tentando justificar o que você faz.

Disputa eterna

O que Hiram poderia querer dizer ao dizer que é sempre uma disputa? Que a comunicação é sempre uma disputa? Que a vida em sociedade é sempre uma disputa? São possibilidades. De qualquer forma isso revela um pouco da visão de mundo do competitivo e desafiante Hiram, que enxerga a luta contra a magia como, talvez, uma questão ainda mais abrangente que justiça.

--- Justificar, Hiram? --- Disse Kan, estreitando o olhar. --- Eu tenho ensinado o que significa a magia, a dezenas de pessoas, para que elas entendam o poder que os magos têm em Al-u-een e em Heelum. Um poder que não deveriam ter.

--- Isso é bom. Tem ensinado seus alunos a lutar contra isso também?

--- Não. Não quero que eles virem foragidos que têm que viver em casas como essa.

Hiram entortou a boca, assentindo com a cabeça. Reconhecia, até com um quê de orgulho, que merecia o insulto.

--- Então ensina seus alunos a serem como os algozes deles?

--- Por que está me perguntando isso tudo, Hiram? --- Questionou Kan, bufando.

--- Para que perceba o que está fazendo, Kan. --- O olhar de reprovação de Hiram parecia irritar Kan profundamente, já que Lenzo podia ver, ainda que apenas através de imprecisos contornos, o punho fechado do colega por debaixo da mesa. --- Você sabe que este poder é o problema, mas ao invés de querer acabar com ele, você quer que todos tenham o mesmo poder. A mesma capacidade de dominar uns aos outros.

--- E você acha que é possível acabar com esse poder? Olhe o que você tem. --- Kan percebeu, com uma olhada rápida para todas os cantos da sala, que Gagé e Raquel olhavam para Lenzo, e que este, por sua vez, olhava para baixo, com a luz vermelha deixando sua pele rosada demais para perceberem que estava pálido, mas brilhante o suficiente para verem o quanto ele suava. --- Você tem quatro pessoas dispostas a tirar de cena um político mago em Al-u-een, e existem milhares de magos em Heelum, todos coordenados, se ajudando, disso nós sabemos... Como você espera conseguir isso?

A aliança magocrata

Ao dizer "disso nós sabemos", pode-se supor que eles conheçam o Conselho dos Magos. Na verdade, não conhecem: essa é apenas uma suposição que eles (alorfos e filinorfos em geral) tomam por certeira: a existência de uma conspiração de magos em que eles se ajudam mutuamente para favorecer e fortalecer sua dominação. A esta teoria se dá o nome de "aliança magocrata".

--- Com a sua ajuda, Kan.

Kan desviou o olhar, em silêncio. Hiram sorria, aberto como um velho amigo.

--- A magia nunca vai acabar.

--- Vivíamos sem ela antes, podemos viver sem ela daqui pra frente, Kan.

Historicidade

Há uma oposição de ideias em relação ao "status" da magia: aqueles que a aceitam afirmam-na como eterna e imutável; outros buscam na história as raízes da magia e entendem que tudo é contingente: se um mundo sem magia já existiu, ele pode ser construído novamente - a magia não pode ser, como diríamos em termos filosóficos, "naturalizada". Debates contemporâneos podem ser identificados nas discussões, por exemplo, sobre o capitalismo: muitos apoiadores do sistema econômico afirmam que ele é "cientificamente" superior e, portanto, uma realidade inevitável e necessária, quanto aqueles que percebem suas falhas podem buscar na história suas origens e, a partir daí, entender como a construção do capitalismo é exatamente isto: uma construção social.

--- Ela é um mistério de Heelum, Hiram. Como é possível... Reprovar isso?

Mistérios de Heelum

A ideia é que Mistérios, sendo partes integrantes de Heelum de uma maneira que ninguém consegue ao certo compreender, são fortes demais para querer simplesmente "eliminá-los". Ou, neste caso, mesmo reprová-los ao invés de aceitá-los.

--- Está dizendo que é natural um ser humano dominando o outro e usando o outro como se faz de praxe, Kan?

Kan voltou a se recostar, parecendo cansado do jogo de palavras.

--- Não foi pra isso que a Rede de Luz nos criou, Kan. A educação para a magia não vai salvar ninguém. Acorde, Kan! Metade dos seus alunos acaba sendo resgatada por magos tradicionais. São envoltos pela ganância!

Traição da causa

Em Al-u-een e em outras cidades a evasão de alorfos é particularmente notável. Alguns alunos, ao aprender o que a magia realmente é, ou têm vontade de entrar mais nesse mundo e se filiarem a alguma tradição mágica, ou o fazem em função de um sentimento de desistência - ao desenvolver uma noção do alcance totalitário da magia, o aluno não vê sentido em lutar contra ela. Outros ainda, são buscados por magos para serem seus discípulos, aliciados para alguma tradição. O interesse dos magos está, em geral, na obtenção de informações sobre alorfos e filinorfos, especialmente suas técnicas. Obter uma técnica, no entanto, é mais difícil, pois os rebeldes são particularmente ciosos quanto a esses segredos, e os ensinam apenas muito tempo após a entrada do aluno nos círculos de confiança.

Era uma estatística bem próxima dos alunos de Lenzo, pelo que ele próprio podia recordar.

--- Outra parte acaba caçada, morta, intimidada... Os magos dão tanto trabalho infrutífero para a polícia dessa cidade, Kan!

--- E você quer dar ainda mais trabalho pra eles.

--- Quero. Quero sim. Mas um que valha a pena.

Kan refletiu em silêncio, cruzando os braços.

--- Você vai, Lenzo?

Lenzo deixou de olhar o que quer que estivera olhando anteriormente na mesa e olhou para Kan. Os olhos arregalados e lacrimejados significavam, na linguagem dos gritos desesperados, que uma decisão estava sendo tomada.

--- Eu... --- O silêncio durou alguns instantes apenas, e mesmo assim conseguiu fazer o coração dos filinorfos da sala parar. --- Tudo bem.

Kan olhou para baixo por uns instantes e enfim deu-se por vencido, abrindo os braços e voltando a colocá-los sobre a mesa.

--- Tudo bem.

Hiram sorriu, satisfeito.

--- Qual é o plano? --- Perguntou Kan.

--- Correm boatos --- Recomeçou o líder filinorfo --- de que as portas de Hourin estão abertas. A filha está doente. Há dias não vai ao parlamento. Não sai de casa.

Portas abertas

Estar de portas abertas significa estar emocionalmente frágil, vulnerável, no mínimo cansado ou, mais raramente, simplesmente desatento. As portas externas do castelo, que devem ser invadidas se os magos quiserem influenciar a pessoa, representam a conexão entre ela e o mundo. Se está aberta, ela está sem defesas.

--- Eu fui até lá e falei com ele. --- Interrompeu Lenzo. --- E... Quando eu olhei pro castelo, o-o castelo dele, as portas estavam abertas sim.

--- Lenzo o conhece. É sobrinho dele. --- Clarificou Hiram. --- Ele é um mago enfraquecido, essa é a verdade... Um mago não deixa as portas abertas, você bem sabe, Kan. A ideia é que, enquanto Gagé, você e Lenzo falam com ele pela porta da frente, eu e Raquel entramos no quarto da filha dele, que fica no segundo andar.

--- Da filha?

--- Sim. Atacamos a filha, que está frágil também, para que ela fique quieta, apenas. Atrás da porta outro de nós espera. Com a espada.

--- E qual é a nossa parte?

--- Vocês falarão com Hourin ao mesmo tempo que o atacam. É preciso fazer com que ele sinta que há algo de errado com a filha. No momento certo, é claro. Depois nós pegamos o maldito quando ele subir.

A complexidade do plano

O plano tem que ser cuidadoso porque ele é motivado pela seguinte hipótese: Hourin é um mago fragilizado. Isso não significa apenas fraqueza - significa também desconfiança, nervos à flor da pele, impaciência. Tentar dominá-lo diretamente, explorando suas "portas abertas" levaria a uma retaliação imediata e forte por parte dele, que é um mago experiente, afinal, além de aumentar sua paranoia e dificultar uma segunda tentativa de dominá-lo magicamente e matá-lo. Por isso é preciso ficar próximo a ele por tempo bastante para explorar sua fraqueza mais imediata, a abertura dos portões - mas sem fazer disso um arriscado ataque frontal, nem ficar próximo dele sem razão alguma e enquanto estranhos, pois isso provocaria desconfiança e provavelmente não o manteria por perto por tempo o bastante. Com Lenzo, a familiaridade baixa as defesas de Hourin. E, quanto à exploração da fraqueza, ela é feita da maneira mais sagaz possível, uma vez que explora justamente o desespero, que o torna frágil em primeiro lugar: ao fazê-lo sentir, como numa espécie de intuição, que a filha está em perigo, ele irá correr para vê-la, sem se preocupar com Neborum. Ao pensar que a filha está em perigo, ele deve correr exatamente de encontro a ela: Hiram sabe que deve esperar por Hourin no quarto da filha. Mas ela, por sua vez, poderia estragar os planos ao alertar o pai sobre o perigo iminente. Raquel precisaria, então, silenciá-la. Eis o plano que precisa envolver tantas pessoas e passos tão complexos.

Lenzo já havia saído da reunião, e sem dispensar mais que uma ou duas palavras despedira-se de todos. Kan o observou sair apressado em direção à maresia, mas permaneceu por mais um tempo diante da luz vermelha.

--- Obrigado, Kan. Amanhã nos vemos. --- Disse Hiram, recolhendo o minério e colocando-o dentro das vestes azuis.

--- Esse plano não pode passar de amanhã. --- Sussurrou Kan, para um escuro cheio de ouvidos e atenção. --- Ele foi difícil de convencer. Se não for amanhã, não vai dar certo.

Hiram concordou, solene, com um único movimento da cabeça.

--- Não se preocupe. Será amanhã.

Convencendo Lenzo

O objetivo dessa reunião, afinal, como se percebe no final do capítulo, não foi convencer Kan - que já estava "convencido" desde o início e fazia parte da encenação - mas sim convencer Lenzo, peça-chave do plano (como visto no comentário acima) que, alorfo recentemente em contato com os filinorfos, não havia confirmado totalmente sua adesão ao plano.

Ver também

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